silenciadu-deactivated20210819:

estou escrevendo agora porque você está longe e alguns dias atrás eu te sentia tão perto que parecia que para te tocar eu só precisava esticar as mãos. porque te escrever é como nos guardar onde só nós temos a chave. porque pôr pra fora é nos deixar ir. e eu preciso que você vá.

a primeira coisa que preciso dizer é que você me traz a sensação de estar em mim. tudo se torna muito real e grandioso ao seu lado - mesmo que seja algo simples. você me faz estar aqui, estar presente. me lembra de respirar e dar um passo após o outro. é tudo muito leve e seguro e tranquilo. eu nunca tive um lar, um lugar apenas meu em que eu sabia que sempre que quisesse poderia ir até lá e me refugiar. e você é meu local de paz. como quando viajamos e deixamos nossa casa, e quando voltamos está tudo em seu lugar, como se a gente nunca tivesse partido. eu poderia ir para qualquer parte do mundo, com qualquer pessoa e em qualquer estação. mas sempre volto pra você. sempre escolho voltar pra você porque parece que nada faz sentido se você não estiver junto. e preciso me curar disso.

a segunda coisa que preciso dizer é que sinto a sua falta quando você não está aqui. quando me escapa nos dedos, nos pensamentos, nos sonhos. parece que você e eu somos algo particular e íntimo demais para andarmos por aí nos mostrando e expondo. como se nós apenas conseguissêmos existir na nossa bolha, no nosso quarto, na nossa mente e coração. nunca fora. então quando você some, eu não saio perambulando pelas ruas perguntando se alguém viu um amor perdido. porque assim como eu, você sempre volta pra mim. e eu não gosto disso. porque existe uma parte sua que eu não conheço e nunca terei acesso. porque mesmo que tudo esteja em seu devido espaço, ainda há ausências e buracos a serem fechados. porque você tem o costume de me fazer flutuar, me fazer sentir como se estivesse sonhando e em seguida me sacudir e soltar, me fazendo cair.

porque mesmo que eu ame você, mesmo que você me ame, mesmo que a gente se encaixe e tudo ao nosso redor grite que devemos permanecer e lutar, mesmo que pareça que somos perfeitas juntas, algumas coisas não são feitas para viverem cada instante. e nós somos instantes perfeitos que existem de maneira extraordinária apenas em um determinado átomo de tempo. e eu sou grata por todos os nossos átimos imutáveis.

a terceira e última coisa que preciso dizer é que aprendi que nem sempre encontramos a plenitude no viver a longo prazo, mas sim naquele finito ápice quando o sentir e o estar e o querer estão a flor da pele. quando tudo é sensível e vulnerável ao que somos e se enraíza em nós. nos tornando um só, com nossos interiores ligados um no outro em impecável harmonia. e a eternidade pode caber nesses minutos em que nos fundimos, e nos segundos entre o nascer do dia e o adormecer da noite. mas existe uma diferença entre o queimar e o aquecer, e existe uma linha tênue entre acalorar e entibiar. e o teu amor por mim chega aqui mas não me contempla.

porque arder não é sinônimo de intensidade, as vezes pode doer. e eu te amo como quem expõe a pele em carne viva ao sol.

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